sábado, 7 de novembro de 2009

Crenças

Em um determinado trecho de uma matéria da edição de maio do ano passado da revista Superinteressante é contado um caso muito interessante: um homem era acusado de ter assassinado um amigo de infância, então a família, através de um médiun, conseguiu uma carta psicografada do morto; a carta foi juntada ao processo e, numa decisão inédita no Brasil, o júri absolveu o homem.
Não desconsidero a possibilidade de a revista ter distorcido os fatos pra dar um tom mais impactante, impondo à carta uma importância que ela, de fato, não tinha no processo. Mas, ainda que isso tenha acontecido, a situação não deixa de me chocar: como se pode aceitar que alguém pense realmente em avaliar a relevância de um papel destes? No âmbito pessoal cada indivíduo é livre pra acreditar no que quiser, mas pára por aí. Não existem meios para se demonstrar a veracidade de uma carta como esta, ficando seu valor condicionado à credulidade daquele que a lê. Se o que conta a reportagem realmente ocorreu, fica aqui a minha completa indignação.
Todavia o que foi narrado é - espero - apenas um caso isolado. Nossas vidas são, porém, marcadas por inúmeras outras práticas que se baseiam pura e simplesmente em crenças. No passado, quando não havia métodos para analisar os fenômenos naturais racionalmente, era aceitável que elas existissem. Mas atualmente já dispomos de muitas ferramentas para explicar uma parte considerável destes fenômenos, o que fez diminuir a influência do misticismo, mas ainda está longe de conseguir exterminá-lo.
Não posso negar que, para muitos, as crenças servem como um consolo para as dificuldades da vida; só que isto os torna passivos e facilita sua subjugação e, mesmo que não causasse estes efeitos colaterais, ainda assim não seria justificável, já que o mais recomendável seria ajudá-los a lutar contra as dificuldades, não promover a acomodação, proliferando as crenças. Para outros, é uma forma de lidar melhor com a morte, especialmente acreditando que depois dela irão para algum tipo de paraíso. Mas uma coisa deixa muito claro que isto é apenas uma forma de tentar se enganar: se de fato estas pessoas acreditassem que vão para um lugar melhor, não haveria atitude mais sábia do que se matar logo e apressar esta maravilhosa viagem. Não é bem o que acontece. Também não preciso falar que muitos grupos terroristas exploram isso para convencer pessoas a se matarem em "guerras santas", não é?

Provavelmente há pessoas com outros motivos para crer no que quer que seja, mas, mesmo que eu os desconheça, tenho algo a dizer sobre todos eles: enquanto alguém acreditar em algo sem exigir provas a respeito, haverá uma porta aberta para a exploração e a dominação, as quais sempre são acompanhadas pela culpa, angústia, medo, miséria, isso sem falar em possíveis conflitos e guerras. Não afirmo que o mundo seria uma maravilha sem crenças, mas elas contribuem enorme e negativamente para torná-lo o que é.
Pensem.

Abraço