Em um determinado trecho de uma matéria da edição de maio do ano passado da revista Superinteressante é contado um caso muito interessante: um homem era acusado de ter assassinado um amigo de infância, então a família, através de um médiun, conseguiu uma carta psicografada do morto; a carta foi juntada ao processo e, numa decisão inédita no Brasil, o júri absolveu o homem.
Não desconsidero a possibilidade de a revista ter distorcido os fatos pra dar um tom mais impactante, impondo à carta uma importância que ela, de fato, não tinha no processo. Mas, ainda que isso tenha acontecido, a situação não deixa de me chocar: como se pode aceitar que alguém pense realmente em avaliar a relevância de um papel destes? No âmbito pessoal cada indivíduo é livre pra acreditar no que quiser, mas pára por aí. Não existem meios para se demonstrar a veracidade de uma carta como esta, ficando seu valor condicionado à credulidade daquele que a lê. Se o que conta a reportagem realmente ocorreu, fica aqui a minha completa indignação.
Todavia o que foi narrado é - espero - apenas um caso isolado. Nossas vidas são, porém, marcadas por inúmeras outras práticas que se baseiam pura e simplesmente em crenças. No passado, quando não havia métodos para analisar os fenômenos naturais racionalmente, era aceitável que elas existissem. Mas atualmente já dispomos de muitas ferramentas para explicar uma parte considerável destes fenômenos, o que fez diminuir a influência do misticismo, mas ainda está longe de conseguir exterminá-lo.
Não posso negar que, para muitos, as crenças servem como um consolo para as dificuldades da vida; só que isto os torna passivos e facilita sua subjugação e, mesmo que não causasse estes efeitos colaterais, ainda assim não seria justificável, já que o mais recomendável seria ajudá-los a lutar contra as dificuldades, não promover a acomodação, proliferando as crenças. Para outros, é uma forma de lidar melhor com a morte, especialmente acreditando que depois dela irão para algum tipo de paraíso. Mas uma coisa deixa muito claro que isto é apenas uma forma de tentar se enganar: se de fato estas pessoas acreditassem que vão para um lugar melhor, não haveria atitude mais sábia do que se matar logo e apressar esta maravilhosa viagem. Não é bem o que acontece. Também não preciso falar que muitos grupos terroristas exploram isso para convencer pessoas a se matarem em "guerras santas", não é?
Provavelmente há pessoas com outros motivos para crer no que quer que seja, mas, mesmo que eu os desconheça, tenho algo a dizer sobre todos eles: enquanto alguém acreditar em algo sem exigir provas a respeito, haverá uma porta aberta para a exploração e a dominação, as quais sempre são acompanhadas pela culpa, angústia, medo, miséria, isso sem falar em possíveis conflitos e guerras. Não afirmo que o mundo seria uma maravilha sem crenças, mas elas contribuem enorme e negativamente para torná-lo o que é.
Pensem.
Abraço
sábado, 7 de novembro de 2009
terça-feira, 30 de junho de 2009
Escolhas
Já falei aqui sobre dúvida e escolha uma vez. Na ocasião, ressaltei a importância da primeira exatamente por nos levar à segunda, e uni isso com a ideia de liberdade. Desta vez, vou tentar me focar mais no aspecto da tomada de decisão em si, isto é, no processo de escolha.
A todo momento estamos fazendo escolhas e, muito embora algumas delas possam alterar radicalmente o rumo das coisas, em geral ignoramos todo o processo que nos leva até a ação final. Mas não é dessas práticas banais que vou falar neste momento.
O que quero discutir são as situações em que há mais de uma possibilidades, mas a escolha de uma elimina todas as outras. Não é necessário dizer que tendem ser as ocasiões mais difíceis, especialmente quando pessoas estão envolvidas e sentimentos influenciam fortemente.
A "eliminação de todas as outras possibilidades", quando se trata de um bem material, por mais dificultoso que venha a ser, em geral é mutável através de esforço próprio. Por exemplo: a escolha entre comprar uma casa ou investir o dinheiro em ações pode ser muito difícil de se fazer, e, se errada, pode causar enormes perdas; mas, ainda que demore anos, é perfeitamente possível consertar a situação.
Já quando estamos falando de pessoas, a coisa é diferente. Escolher a pessoa errada, seja para contratar pra trabalhar na sua empresa, seja para manter um relacionamento amoroso, pode ser irreparável. Quando se der conta do erro, aquela outra "possibilidade" pode já estar no concorrente ou casada com outra pessoa.
Claro que nenhum dos dois casos é agradável e desejado por alguém. Exatamente por isso é importante avaliar corretamente as possibilidades. Sentimentos podem ajudar nessa etapa, mas deve-se saber compreendê-los. É muito comum adiar a ação de uma decisão já tomada por questões emocionais e sociais, como quando um casal já sabe que seu relacionamento está destruído, mas insiste em mantê-lo por causa das "aparências".
Na verdade, o aspecto social é um fator tão relevante que frequentemente é priorizado em relação a todos os outros. Adequar-se aos padrões do grupo em que se está inserido é mais importante pra maioria das pessoas do que tentar buscar o que de fato se necessita naquele momento. Não sei se é aconselhável chamar isso de erro, pois ser excluído do grupo é desastroso para qualquer ser humano, porém basta olhar ao redor para notar o extremismo dessa prática.
O conflito se dá, na verdade, na fronteira entre os interesses direto e indireto. Explicando: enquanto as consequências sociais de se mudar a situação parecerem piores do que o mau-estar que mantê-la está causando, ela será mantida; a partir do momento que este quadro mudar, uma atitude pode ser esperada a qualquer momento. Isto torna claro o motivo de não raramente observarmos pessoas "explodindo" por problemas que já existem há muito tempo.
Apesar de todos só pensarem em proteger seus interesses, é notável a dificuldade da maioria em perceber quando uma estratégia já não está dando mais certo e a outra precisa ser usada. É possível que esteja aí o grande problema de escolha.
Chegando ao final desta postagem, percebo que talvez não tenha conseguido chegar ao objetivo proposto inicialmente. Talvez também não me tenha feito ser tão claro quanto gostaria. Espero, contudo, que sirva ao menos pra estimular um pouco de reflexão.
Abraço a todos
A todo momento estamos fazendo escolhas e, muito embora algumas delas possam alterar radicalmente o rumo das coisas, em geral ignoramos todo o processo que nos leva até a ação final. Mas não é dessas práticas banais que vou falar neste momento.
O que quero discutir são as situações em que há mais de uma possibilidades, mas a escolha de uma elimina todas as outras. Não é necessário dizer que tendem ser as ocasiões mais difíceis, especialmente quando pessoas estão envolvidas e sentimentos influenciam fortemente.
A "eliminação de todas as outras possibilidades", quando se trata de um bem material, por mais dificultoso que venha a ser, em geral é mutável através de esforço próprio. Por exemplo: a escolha entre comprar uma casa ou investir o dinheiro em ações pode ser muito difícil de se fazer, e, se errada, pode causar enormes perdas; mas, ainda que demore anos, é perfeitamente possível consertar a situação.
Já quando estamos falando de pessoas, a coisa é diferente. Escolher a pessoa errada, seja para contratar pra trabalhar na sua empresa, seja para manter um relacionamento amoroso, pode ser irreparável. Quando se der conta do erro, aquela outra "possibilidade" pode já estar no concorrente ou casada com outra pessoa.
Claro que nenhum dos dois casos é agradável e desejado por alguém. Exatamente por isso é importante avaliar corretamente as possibilidades. Sentimentos podem ajudar nessa etapa, mas deve-se saber compreendê-los. É muito comum adiar a ação de uma decisão já tomada por questões emocionais e sociais, como quando um casal já sabe que seu relacionamento está destruído, mas insiste em mantê-lo por causa das "aparências".
Na verdade, o aspecto social é um fator tão relevante que frequentemente é priorizado em relação a todos os outros. Adequar-se aos padrões do grupo em que se está inserido é mais importante pra maioria das pessoas do que tentar buscar o que de fato se necessita naquele momento. Não sei se é aconselhável chamar isso de erro, pois ser excluído do grupo é desastroso para qualquer ser humano, porém basta olhar ao redor para notar o extremismo dessa prática.
O conflito se dá, na verdade, na fronteira entre os interesses direto e indireto. Explicando: enquanto as consequências sociais de se mudar a situação parecerem piores do que o mau-estar que mantê-la está causando, ela será mantida; a partir do momento que este quadro mudar, uma atitude pode ser esperada a qualquer momento. Isto torna claro o motivo de não raramente observarmos pessoas "explodindo" por problemas que já existem há muito tempo.
Apesar de todos só pensarem em proteger seus interesses, é notável a dificuldade da maioria em perceber quando uma estratégia já não está dando mais certo e a outra precisa ser usada. É possível que esteja aí o grande problema de escolha.
Chegando ao final desta postagem, percebo que talvez não tenha conseguido chegar ao objetivo proposto inicialmente. Talvez também não me tenha feito ser tão claro quanto gostaria. Espero, contudo, que sirva ao menos pra estimular um pouco de reflexão.
Abraço a todos
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
As trevas persistem
Estou de volta, muito tempo depois...
Há uns dias vi uma reportagem sobre um padre que foi suspenso (não sei se é este o termo correto) por suas declarações sobre homossexualismo e uso de preservativos. Vários pontos me chamaram a atenção nessa história, então vamos a eles.
Primeiramente, segundo o próprio padre, que também é deputado federal, suas palavras foram ditas enquanto político, não religioso. Algumas perguntas surgem nesse ponto: como isso é possível? Ele tem duas opiniões diferentes, uma como padre e outra como deputado? É possível alguém sustentar duas visões completamente opostas desta maneira?
Em segundo lugar, é preciso comentar o que disse bispo. Sobre o motivo da suspensão, é muito simples: as palavras do padre contrariam as ordens do Vaticano. Analisando a hierarquia da igreja católica, aparenta ser um mero caso de obediência a um superior. Mas o problema não se resume a isso. Como é permitido, em nossa época, alguém com tanta influência sobre o povo defender publicamente a homofobia e o não-uso de preservativos? E ele ainda colocou como condição para o padre voltar às suas atividades normais que ele se retratasse sobre as declarações. Ou seja, além de expor seu preconceito e ignorância a todos, o bispo ainda tem o poder de exigir que outro faça o mesmo e não sofre punição alguma por isso...
Pra terminar, me parece importante diminuir o zoom sobre a situação e falar de forma mais geral. Todas as grandre religiões do mundo aprensetam, há séculos, idéias muito parecidas com a do catolicismo, com algumas pequenas mudanças para se adequar à época. Até quando estas idéias carregadas de todo tipo de preconceito serão aceitas com naturalidade pela sociedade?
Um abraço
Há uns dias vi uma reportagem sobre um padre que foi suspenso (não sei se é este o termo correto) por suas declarações sobre homossexualismo e uso de preservativos. Vários pontos me chamaram a atenção nessa história, então vamos a eles.
Primeiramente, segundo o próprio padre, que também é deputado federal, suas palavras foram ditas enquanto político, não religioso. Algumas perguntas surgem nesse ponto: como isso é possível? Ele tem duas opiniões diferentes, uma como padre e outra como deputado? É possível alguém sustentar duas visões completamente opostas desta maneira?
Em segundo lugar, é preciso comentar o que disse bispo. Sobre o motivo da suspensão, é muito simples: as palavras do padre contrariam as ordens do Vaticano. Analisando a hierarquia da igreja católica, aparenta ser um mero caso de obediência a um superior. Mas o problema não se resume a isso. Como é permitido, em nossa época, alguém com tanta influência sobre o povo defender publicamente a homofobia e o não-uso de preservativos? E ele ainda colocou como condição para o padre voltar às suas atividades normais que ele se retratasse sobre as declarações. Ou seja, além de expor seu preconceito e ignorância a todos, o bispo ainda tem o poder de exigir que outro faça o mesmo e não sofre punição alguma por isso...
Pra terminar, me parece importante diminuir o zoom sobre a situação e falar de forma mais geral. Todas as grandre religiões do mundo aprensetam, há séculos, idéias muito parecidas com a do catolicismo, com algumas pequenas mudanças para se adequar à época. Até quando estas idéias carregadas de todo tipo de preconceito serão aceitas com naturalidade pela sociedade?
Um abraço
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